Participar & Escrever

  1. Relação entre doença bipolar e criação artística analisada em livro hoje editado
    3 de Outubro de 2007, 19:15

    Lisboa, 03 Out (Lusa) - Edgar Allan Poe, Lord Byron, Van Gogh e Virgínia Wolf são alguns dos artistas bipolares "marcados pela genialidade e pela loucura" referidos em "Tocados pelo Fogo", um livro da psiquiatra norte-americana Kay Redfield Jamison, hoje apresentado.

    O psiquiatra José Manuel Jara, autor do prefácio da edição portuguesa do livro que explora a relação entre a doença bipolar e a criação artística, explicou, em declarações à Lusa, que essa relação pode ter origem genética ou psicológica.

    "As pessoas com uma vida mais agitada e temperamental, com relações afectivas muito intensas, são mais predispostas para a arte", afirma o psiquiatra do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, que acrescenta que "a arte pode funcionar como uma reparação do equilíbrio perdido em consequência das variações de humor", característica da doença bipolar.

    A Doença Bipolar, tradicionalmente designada por maníaco-depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor na mesma pessoa, com crises repetidas de depressão e de euforia, com repercussão nas sensações, emoções, ideias e no comportamento.

    José Manuel Jara, também presidente da Associação de Educação e Apoio na Esquizofrenia, afirma que são os estados mais depressivos que levam os doentes bipolares a uma maior predisposição para a criação artística.

    O psiquiatra desmistifica ainda a ideia de que "o doente tratado deixa de ser criativo", explicando que "o tratamento dos doentes bipolares deve ser acompanhado de forma a não eliminar a sua criatividade".

    As pessoas que sofrem de doença bipolar, que José Manuel Jara descreve como "uma doença misteriosa", têm para o psiquiatra "uma parte criativa muito importante, que representa uma coincidência entre a genialidade e a loucura".

    José Manuel Jara lembra alguns casos de portugueses que eram "génios marcados pela loucura" como Antero de Quental, "que nas cartas enviadas a amigos demonstrava consciência da doença", Florbela Espanca, "com uma vida marcada por oscilações e que culminou no suicídio" e Mário de Sá Carneiro, poeta e amigo de Fernando Pessoa que reflectia nas cartas que lhe enviava "alterações de humor que o próprio não conseguia explicar".

    Dos casos apresentados em "Tocados pelo Fogo" pela psiquiatra norte-americana Kay Redfield Jamison, ela própria doente bipolar, José Manuel Jara destaca os de Lord Byron, poeta britânico associado ao Romantismo, e o de Schumann, "um talento musical e também literário".

    O psiquiatra considera a obra "útil, com muitos dados científicos e também de grande valor literário".

    "No fundo, é um livro que representa um interface entre a medicina e as ciências humanas e que consegue um bom equilíbrio entre o aspecto científico e artístico", disse em declarações à Lusa.

    Kay Redfield Jameson, que é também autora do livro "Uma Mente Inquieta", no qual aborda a sua própria experiência enquanto doente bipolar, é professora de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade John Hopkins, Estados Unidos.

    Autora de vários livros, é considerada uma das maiores especialistas norte-americanas em desordem bipolar.

    IZA.

    Lusa/fim

    http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/8C2UY8F7LWGQqMmcjCKyIw.html